Crimes e violência de gangues alarmam a Suécia

Claudia Wallin, correspondente da RFI em Estocolmo

Em 2013, a Suécia fechou quatro penitenciárias e um centro de detenção por falta de prisioneiros. Hoje, o cenário é outro: prisões cheias, explosões recorrentes e tiroteios entre gangues rivais em áreas residenciais – uma das vítimas mais recentes foi uma menina de 12 anos, atingida por uma bala perdida quando passeava com seu cachorro na região metropolitana da capital sueca.

Os índices da criminalidade na Suécia estão longe de deixar um brasileiro perplexo – e continuam a figurar entre os mais baixos do mundo. Mas o recrudescimento dos episódios de violência alarma a população sueca, historicamente pouco habituada a ler sobre crime nos jornais do próprio país. E perturbam um país que elegeu a igualdade e a justiça social como fundamentos centrais para construir uma sociedade mais solidária, e portanto menos violenta.

A escalada da violência das gangues passou a dominar o centro do debate político. O tema explodiu no cenário nacional a partir de declarações da polícia de que existem hoje na Suécia pelo menos 40 gangues criminosas organizadas por meio de estruturas familiares, os chamados clãs.

“Esses clãs vieram para a Suécia unicamente com o objetivo de organizar e sistematizar operações criminosas”, afirmou o vice-comandante geral da polícia sueca, Mats Löfving, em entrevista recente à rádio pública sueca.

A fala de Löfving recebeu críticas de lideranças políticas e de setores da própria polícia, e acirrou o debate sobre imigração e integração.

“Os clãs trabalham para criar poder, têm enorme capacidade de violência e querem ganhar dinheiro. E fazem isso através do tráfico de drogas, de crimes violentos e de chantagens”, acrescentou Mats Löfving.

Um porta-voz da polícia sueca disse à reportagem da RFI que as gangues criminosas têm origem em outros países. Mas afirmou que as nacionalidades dos clãs são informações da Inteligência sueca, que não podem ser reveladas pela polícia.

“Há clãs que se estabeleceram no país há 35, 40 anos. Mas há também exemplos de organizações que vêm aqui apenas com o propósito de cometer crimes”, disse à TV pública sueca SVT a chefe de inteligência do Departamento de Operações da Polícia, Linda H. Staaf. Alguns desses clãs também têm ramificações em países como a Alemanha, onde a cidade de Essen (oeste alemão), por exemplo, também enfrenta a atuação de gangues criminosas.

Fraudes no sistema de Bem-Estar Social

Integrantes dos clãs do crime também já se infiltram em agências públicas suecas, como a Agência Nacional do Emprego (Arbetsförmedlingen) e a Agência de Seguridade Social (Försäkringskassan), a fim de fraudar o sistema de Bem-Estar Social sueco.

Autoridades suecas calculam que as gangues criminosas já desviaram milhões de coroas suecas do vasto sistema de concessão de benefícios sociais do país, que os clãs também utilizam como fonte de renda.

No Arbetsförmedlingen, segundo a dirigente Eva-Lena Edberg, foram identificados indivíduos que haviam sido empregados e treinados pela agência para operar o sistema de concessão de benefícios, e que passaram a canalizar os subsídios para uma rede de contatos. Na Försäkringskassan, as autoridades investigam uma rede criminosa responsável pela captação ilegal de milhões em subsídios para familiares.

Há também indícios de que membros dos clãs estão se infiltrando na política local, particularmente em regiões menos favorecidas.

Tiroteios e explosões

A discussão em torno da violência ganhou força na mídia e nas redes sociais a partir do momento em que a criminalidade, antes confinada a subúrbios de baixa renda das principais cidades, começou a transbordar para áreas mais abastadas do país.

Em setembro do ano passado, quando três explosões ocorreram em uma mesma noite em diferentes bairros de Estocolmo, os moradores do centro da capital se chocaram: incidentes com granadas e explosivos improvisados já vinham ocorrendo em subúrbios distantes, com altos índices de desemprego e grande concentração de imigrantes – mas nunca tão perto da porta de suas casas.

Este ano, foram registradas até setembro 80 explosões e 67 ataques frustrados com explosivos na Suécia, apontam estatísticas da polícia. Em 2019, a polícia registrou 257 ataques com explosivos. Em um dos ataques, contra um conjunto residencial na cidade de Linköping, 25 pessoas ficaram feridas. Em 2018, houve 162 casos.

Os ataques são em geral praticados por clãs contra grupos rivais. Mas ataques com explosivos e granadas contra delegacias de polícia, além de ameaças a policiais, já ocorreram em diferentes cidades suecas nos últimos anos.

Tiroteios também se tornaram incomodamente mais comuns. No início de agosto, uma menina de 12 anos de idade que passeava com o cachorro morreu após ser atingida durante um tiroteio em Norsborg, no sul da capital sueca.

O caso remeteu à tragédia ocorrida há um ano na cidade de Malmö, quando a médica Karolin Hakim, de 31 anos, que carregava no colo seu bebê de dois meses de idade, foi morta em pleno dia durante uma troca de tiros entre criminosos. Também em Malmö, um adolescente de 15 anos morreu em novembro passado quando homens armados abriram fogo em frente a uma pizzaria.

Incidentes com facas foram durante muito tempo o método mais comum de violência na Suécia. Nos últimos anos, segundo o Conselho Nacional de Prevenção ao Crime (Brottsförebyggande rådet – BRÅ), o uso de armas automáticas se tornou mais comum.

Pelos números da polícia sueca, até o momento foram registrados este ano 242 tiroteios no país, que provocaram a morte de 28 pessoas e deixaram 84 feridos. Em 2019, foram 334 tiroteios e 42 mortes. Em Estocolmo, o número saltou de 54 incidentes com armas de fogo entre janeiro e agosto no ano passado para mais de 85 no mesmo período deste ano.

A maioria dos ataques ocorre nas três maiores cidades do país – Estocolmo, Gotemburgo e Malmö. Nesta última, o bairro de Rosengård é frequentemente classificado como “zona proibida”: no ano passado, a empresa americana UPS chegou a suspender as entregas na área após uma série de ataques contra seus motoristas.

Vários hospitais do país também já denunciaram confrontos armados em salas de emergência, ataques contra ambulâncias e ameaças contra médicos e enfermeiros.

Até 2017, a categoria de crime com explosivos sequer existia na Suécia. Diante da nova realidade, equipes da polícia têm sido enviadas em missões de treinamento nos Estados Unidos, na Alemanha e na Holanda. Os policiais estreitaram também os contatos com militares suecos especializados em explosivos, que já atuaram em países como o Afeganistão.

“Este tipo de crime é novo na Suécia”, diz Mats Lövning.

Barreiras do crime

Em Gotemburgo, a segunda maior cidade do país, uma série de incidentes chocou os residentes em agosto. Na área de Hammarkullen, em aberto desafio à polícia, homens mascarados montaram barreiras improvisadas para controlar o trânsito de veículos, aparentemente a fim de impedir a entrada de grupos rivais no que consideram ser seu ‘território’.

“A ação da polícia e a aplicação de punições deve ser imediata e determinada, no momento em que o monopólio de violência do Estado é desafiado de tal forma”, destacou em editorial o jornal Dagens Nyheter.

Em seguida, um professor foi sequestrado e agredido por uma gangue, após ter denunciado à polícia a presença de um homem armado próximo à escola Lövgärdesskolan.

E no coração da cidade, uma ruidosa operação policial cercou um hotel após um funcionário denunciar a presença no local de cerca de 40 líderes de duas facções criminosas.

“O fato de criminosos se acharem no direito de se reunir em pleno dia em um hotel de luxo é provocativo e sem precedentes”, disse o chefe de polícia local Erik Nord.

Apesar das ações mais ousadas dos clãs, a Suécia continua a ser uma sociedade comparativamente pacífica. No ranking de 2019 das cidades mais seguras do mundo (Safe Cities Index), elaborado pela Economist Intelligence Unit, Estocolmo aparece em 12º lugar. Na lista, que avalia 60 cidades, Rio de Janeiro e São Paulo ocupam, respectivamente, a 41ª e a 42ª posições.

Imigração e Integração

Crianças a partir de oito anos de idade estão sendo recrutadas pelas gangues, aponta a polícia. Segundo afirmou o Vice-Comandante Geral da Polícia, Mats Löfving, na entrevista à rádio sueca, as crianças são preparadas para darem continuidade às atividades dos clãs – até casamentos são arranjados a fim de consolidar e fortalecer o poder das famílias. E crimes mais violentos vêm sendo praticados pelos integrantes mais jovens dos clãs, que não estão sujeitos às penas impostas aos adultos.

Em uma declaração polêmica, Löfving disse que os suecos têm sido ingênuos em relação ao atual debate sobre integração, uma vez que os membros dos clãs “não têm nenhuma ambição de se tornar parte da sociedade”:

“Sua ambição é assumir o comando da criminalidade, e nesse ponto nós na Suécia somos muito ingênuos”, declarou Löfving. Vários integrantes da própria polícia vieram a público para criticar a afirmação, e observar que nem todos os membros de famílias baseadas na cultura de clãs se envolvem na ciriminalidade.

Imediatamente após a entrevista, um porta-voz do partido anti-imigração Democratas da Suécia (Sverigedemokraterna) foi ao Twitter para defender o fim da entrada de imigrantes no país, e a imposição de uma política radical de deportações – proposta que também passou a ser defendida pelo conservador Partido Moderado, o segundo maior do país.

O primeiro-ministro Stefan Löfven, do partido Social-Democrata, afirmou que o governo vai agir de forma determinada no combate à criminalidade. “Mas não quero estabelecer um vínculo entre criminalidade e etnia”, enfatizou Löfven durante entrevista coletiva.

Na visão do governo e da maior parte dos analistas, o principal motor da violência são as circunstâncias sociais nas áreas menos favorecidas, em que a segregação, o desemprego, a pobreza e a evasão escolar conduzem à criminalidade.

A fim de fazer frente ao recrutamento de crianças pelas gangues e reverter a escalada da criminalidade no país, o primeiro-ministro Stefan Löfven ressaltou a importância de reforçar o papel das escolas e dos serviços de assistência social, além de políticas de treinamento profissional e de promoção do trabalho que ofereçam melhores perspectivas de futuro aos jovens que vivem em áreas mais pobres.

Algumas regiões já consideram fechar escolas em que a maioria dos alunos é de origem imigrante, a fim de facilitar a integração de estudantes de origem estrangeira na sociedade sueca.

Já para a extrema-direita sueca, as explosões e tiroteios no país jogam combustível no seu argumento de que o grande volume de imigração na Suécia durante as últimas décadas, aliado a uma política fracassada de integração, são responsáveis pelo surgimento de regiões econômicamente vulneráveis que favoreceram o crescimento da criminalidade.

O discurso anti-imigração arregimentou maior apoio de uma parcela da população a partir da crise de refugiados de 2015, quando em termos per capita a Suécia recebeu mais imigrantes do que qualquer outro país europeu – no total, 163 mil pessoas foram acolhidas.

Apesar das medidas subsequentes do governo social-democrata para conter o fluxo de imigrantes, nas eleições gerais de 2018 o partido Democratas da Suécia – que estreou no Parlamento sueco em 2010 – conquistou 18% dos votos, tornando-se o terceiro maior partido político do país.

Tratado até pouco tempo como um pária no Parlamento sueco, o Democratas da Suécia tenta cada vez mais se distanciar do passado neonazista de muitos membros que fundaram o partido em 1988, através da expulsão de integrantes abertamente xenofóbicos. E a fim de fazer frente à hegemonia da coalizão de governo social-democrata, o apoio político do líder do Democratas, Jimmie Åkesson, tem sido agora cortejado pelos partidos Conservador e Democrata-Cristão, que também passaram a defender uma política mais restrita de imigração.

“Uma maior imigração, sem que se tenha êxito em promover a integração de imigrantes, traz um risco maior de agravar o problema da criminalidade. Isto é evidente. Mas precisamos ser extremamente cautelosos em não relacionar automaticamente a criminalidade a uma determinada cor de pele ou religião”, destacou Löfvén.

O primeiro-ministro planeja empregar mais dez mil policiais até 2024, e expandir a capacidade do sistema prisional diante da carência de vagas nas penitenciárias. O governo também aumentou as penas de prisão para diferentes categorias de crime, e ampliou os poderes de investigação da polícia.

A fim de evitar a discriminação racial, a polícia sueca não revela – e nem mesmo registra – a etnia de suspeitos ou de criminosos condenados.

Há três anos, Peter Springare, um veterano policial da cidade de Örebro que hoje atua como vereador, chegou a ser denunciado por incitamento ao ódio racial ao publicar em sua página no Facebook um polêmico post no qual indicava uma lista dos países de origem dos suspeitos de crimes violentos que ele investigava naquela semana: “Irã, Iraque, Turquia, Síria, Afeganistão, Somália, Somália, Síria de novo, Somália, país desconhecido, país desconhecido, Suécia”. O post viralizou nas mídias sociais e a fala de Springare foi noticiada por jornais estrangeiros como o New York Times, mas não pela mídia sueca.

Cultura do silêncio

A cultura do silêncio, que impera entre os membros das gangues criminosas e das comunidades onde operam os clãs, dificulta as investigações policiais. Em 2018, apenas um em cada dez crimes levou a uma condenação.

A Operação Rimfrost, uma agressiva operação policial iniciada no fim de 2019 com a missão de reduzir a criminalidade, foi encerrada em junho deste ano sem o desejado efeito. Mas a polícia apreendeu centenas de armas e mais de cem quilos de explosivos, e mais de 300 integrantes de organizações criminosas foram presos.

Para a polícia, assim como para o governo, o envolvimento da sociedade diante da atual crise é crucial. “Apesar do trabalho da polícia, a situação se desenvolve em uma tendência negativa, com um alto índice de tiroteios e explosões. Outros atores da sociedade, como escolas, assistentes sociais e a sociedade civil como um todo têm uma importante missão a cumprir a fim de impedir que mais pessoas sejam arrastadas para a criminalidade”, alerta um comunicado da polícia.

Em Malmö, o chefe de polícia Stefan Sintéus diz que muitos adolescentes da cidade têm irmãos mais velhos que estão hoje na prisão:

“Se a sociedade não agir agora, sei que daqui a alguns anos vou reencontrar esses adolescentes. Seja como infratores, seja com uma bala no corpo”.

 

3 de  Outubro de 2020

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